Pensa em Kate Moss de cabelo rosa numa cama desarrumada. Num desfile de Alexander McQueen com fogo no chão da passarela. Numa pista de dança em Manchester às três da manhã.
Tudo isso está agora dentro de um museu. A Tate Britain, em Londres, abriu em 8 de outubro a exposição The 90s, Art and Fashion, que fica em cartaz até 14 de fevereiro de 2027. São quase 70 artistas, fotógrafos e estilistas, com mais de 100 obras entre fotografias, pinturas, esculturas e roupas.
The 90s: Art and Fashion at Tate Britain. Photo © Tate (Lucy Green)
O que deixa tudo ainda mais interessante é quem assina a curadoria.
Quem é Edward Enninful
Edward Enninful é um dos nomes mais importantes da moda das últimas décadas. Aos 18 anos ele se tornou diretor de moda da revista i-D, um dos mais jovens da história de uma publicação internacional. Depois colaborou com a Vogue Italia, onde participou da famosa Black Issue, edição de 2008 feita só com modelos negras.
Em 2017 ele se tornou o primeiro homem negro a comandar a Vogue britânica, e recebeu o título de OBE pelo trabalho pela diversidade na moda.
Edward Enninful by Adama Jalloh
Na Tate, ele lidera a curadoria ao lado da equipe de arte britânica contemporânea do museu. Faz todo o sentido. Enninful viveu os anos 90 por dentro, justamente nas revistas que ajudaram a mudar a cara da década.
Uma década que mudou o jeito de ver beleza
A exposição começa pelo espírito faça você mesmo. As fotos feitas para revistas como i-D e Dazed and Confused abriram espaço para a imperfeição e para o estilo grunge, bem longe do glamour engessado dos anos 80.
Nessa primeira parte aparecem fotógrafos como Corinne Day, Nigel Shafran e Juergen Teller. São imagens que hoje parecem naturais, mas que na época causaram estranhamento justamente por mostrar as pessoas como elas eram.
Juergen Teller, Young Pink Kate London 1998 © Juergen Teller, All Rights Reserved
Em seguida, a mostra fala de como a mídia impressa ampliou a ideia de beleza. Um dos exemplos lembrados é Kate Moss com o vestido transparente de Liza Bruce, uma imagem que virou símbolo do período.
Gente comum como musa
Outra sala é dedicada a quem transformou o cotidiano em arte. Ali estão nomes ligados aos Young British Artists, o grupo que sacudiu a arte britânica naquela década.
Tracey Emin, Sarah Lucas, Gillian Wearing, Jenny Saville e Sam Taylor Johnson aparecem ao lado de Barbara Walker. Em comum, um olhar franco sobre identidade, corpo e vida real.
A noite, os clubes e a cultura de rua
Para quem gosta de música, essa talvez seja a parte mais divertida. A exposição percorre a vida noturna dos anos 90, com rave, acid house, jungle, hip hop, drum and bass e as noites queer.
Há registros de clubes lendários como o Haçienda, em Manchester, e o Bagley's, em Londres. Entre os destaques estão o filme Fiorucci Made Me Hardcore, de Mark Leckey, de 1999, e a série Burn up, Northampton, da fotógrafa Elaine Constantine.
Jon Shard, Flesh at The Haçienda 1996. Courtesy of British Culture Archive © Jon Shard, British Culture Archive.
É uma parte que lembra como a moda daquela época nasceu tanto nas pistas quanto nas passarelas.
Quando arte e moda viram uma coisa só
A mostra também passa pelo lado mais sombrio e conceitual da década. Aqui entram obras ligadas ao gótico, ao minimalismo e às respostas artísticas à crise da aids, com artistas como Rachel Whiteread, Helen Chadwick, Damien Hirst, Gary Hume e os irmãos Jake e Dinos Chapman.
Logo depois vem o encontro direto entre arte e moda. Alexander McQueen e Hussein Chalayan aparecem ao lado de fotógrafos como Nick Knight, David Sims e Craig McDean. Wolfgang Tillmans entra com Concorde Grid, de 1997.
Alexander McQueen, AW98. Photo Guy Marineau, Vogue © Condé Nast
McQueen, aliás, também apoia a exposição. A marca foi fundada em Londres em 1992 por Lee Alexander McQueen, que se formou na alfaiataria de Savile Row e na Central Saint Martins.
Cool Britannia por outro ângulo
Uma das salas mais importantes olha para quem ficou de fora da história oficial da Cool Britannia. A exposição dá destaque a artistas e estilistas negros britânicos que foram fundamentais para a cena da época.
Estão ali Steve McQueen com Bear, de 1993, e Chris Ofili com No Woman, No Cry, de 1998, obra do ano em que ele venceu o Turner Prize. Também aparecem os estilistas Ozwald Boateng e Joe Casely-Hayford, além de Keith Piper, Koto Bolofo, Jason Evans e Simon Foxton.
Chris Ofili, No Woman No Cry 1998 © Chris Ofili, courtesy Victoria Miro, London. Tate.
O fim do século e o olhar para frente
A última sala reúne artistas e estilistas que repensaram a história e a identidade britânica na virada do milênio. Yinka Shonibare e Maud Sulter dividem o espaço com Vivienne Westwood e John Galliano.
Yinka Shonibare, The Swing (after Fragonard) 2001 © Yinka Shonibare. Tate.
É um fechamento bonito, que mostra os anos 90 como uma década de passagem. Muita coisa que hoje parece óbvia na moda e na arte começou a ser construída ali.
Por que essa exposição conversa com a gente
Os anos 90 estão de volta nas araras, nas redes e nas paredes de casa. Ver essa década reunida num museu ajuda a entender de onde vem tanta coisa que a gente consome hoje.
E tem um ponto que vale para quem ama decoração. A exposição mostra como fotografia, moda e arte podem conversar no mesmo espaço. Uma foto de revista ao lado de uma pintura, uma peça de roupa tratada como escultura. Essa mistura também funciona muito bem dentro de casa.
Leia também
- Lee Krasner e Jackson Pollock lado a lado no Met, e por que isso demorou tanto
- Pré-Rafaelitas ganham grande exposição sobre arte e poesia
Serviço
The 90s, Art and Fashion. Tate Britain, Millbank, Londres. De 8 de outubro de 2026 a 14 de fevereiro de 2027, todos os dias, das 10h às 18h. Ingressos no site da Tate. Membros da Tate entram de graça, e jovens de 16 a 25 anos cadastrados no Tate Collective pagam 5 libras.
Fontes
Tate, comunicado de imprensa de abertura de The 90s, Art and Fashion, 6 de outubro de 2026. tate.org.uk
Tate, comunicado de anúncio da exposição. tate.org.uk
Imagens cedidas pela Tate para uso editorial, com os créditos indicados em cada foto.
